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Fundamentos sólidos para o pensamento político cristão em prol de uma juventude antirrevolucionária: Parte II:

Na última quarta (18), iniciamos uma série de dois textos que visa explicar – numa perspectiva reformada de linha neocalvinista – a diferença crucial entre o pensamento político cristão, das teorias revolucionárias bem como dos argumentos de filósofos conservadores clássicos sobre a vida política.



Na primeira parte da série expliquei a base simples do pensamento político cristão e sua estrutura. Com base naquela estrutura de cosmovisão cristã – Criação; Queda e Redenção – concluí que o motivo maior para negarmos as revoluções e o conservadorismo clássico [bem como o anarquismo, como veremos hoje]não são principalmente seus efeitos, mas seus pressupostos, suas afirmativas implícitas; em outras palavras, seus fundamentos mais básicos.



Por isso o título dos textos é sugestivo, propõe a substituição e reforma desses fundamentos falaciosos por fundamentos realmente sólidos. Hoje (23), na segunda parte desta série, entenderemos quais são esses pressupostos e o que eles acarretam na formulação de visões políticas.



Comecemos pelas revoluções.Em geral, as revoluções sociais são fundadas numa perspectiva que coloca o homem como detentor do “pincel” da realidade. O real problema do pensamento revolucionário é sua raiz filosófica que sustenta uma visão de mundo sem ordens estruturais normativas. Isso abre caminho para o entendimento que de o todo e as partes do cosmos podem ser alterados e configurados ao bel prazer de um teórico político. A conotação original da palavra revolução referia-se a uma vasta convulsão social ou uma política radical. Os exemplos mais bem claros da originalidade do termo foram os levantes políticos de 1789 e 1918.



O professor emérito de religião na RedemerUniversityCollege em Ancaster (Ontário) e descrito como uma das mentes mais brilhantes do panteão neocalvinistakuyperiano, Albert M. Wolters, escreveu que a Revolução “(...) é caracterizada pelos seguintes aspectos, entre outros: (1) violência necessária, (2) remoção completa de cada aspecto do sistema estabelecido e (3) construção de uma ordem social totalmente diferente de acordo com um ideal teórico.” Wolters, com isso, conclui que o terceiro princípio bíblico da cosmovisão (Redenção) “(...) se opõe a cada um desses três pontos.” Na cosmovisão cristã reformada não há respaldo para revoluções sociais. A cosmovisão cristã detecta a estrutura normativa e criacional e busca sempre a redenção/reforma de seu direcionamento, mas nunca uma remoção e reconstrução completa do sistema.



Um exemplo que para demonstrar as estruturas criacionais em operação na vida política são as hierarquias da realidade. Deus, conforme lemos em sua Palavra, determinou dentro de cada esfera da vida humana, e dentre elas a esfera política, hierarquias para dinamizar e ordens para organizar. Por mais que novas teorias revolucionárias – como o Comunismo e o Anarquismo – tentem reconfigurar essa realidade, rompendo com a realidade normativa de hierarquia, essas tentativas são ineficazes. O que percebemos é que depois do discurso de “fim das classes sociais” ou da defesa de um mundo “sem deuses, sem mestres” sempre surgiram novas classes sociais, com uma nova ordem do maior ao menor e novos mestres e deuses para guiar o povo auma verdadeira luz.



Por quê? Porque as classes e as hierarquias são estruturas normativas da ordem com que Deus criou o mundo, e não mera construção temporal feita pela arbitrariedade do homem ao longo da história. Este foco na estrutura e sua direção por parte da Cosmovisão Cristã Reformada, de fato, rejeita uma simpatia por revoluções e anarquismo como vimos, mas também condena um conservadorismo quietista.



Terminemos com o conservadorismo clássico. Este foco na estrutura e sua direção por parte da Cosmovisão Cristã Reformada, de fato, rejeita uma simpatia por revoluções e anarquias. Porém, também condena um conservadorismo quietista. Infelizmente, os fundamentos do pensamento antirrevolucionário de conservadores clássicos, como Davi Hume (1711-1776) e Michael Oakeshott (1901-1990) e outros são frágeis. Em síntese, a ideia destes pensadores é de que se existem instituições, dinâmicas sociais, ordens legais e costumes familiares estabelecidos, estes o foram devido os hábitos e costumes de longos anos de prática e repetição. Por isso, eles devem ser protegidos, respeitados e cuidados, independente qual seja (em muitos casos). Isso gerou muita polêmica quando se tratou, por exemplo, da escravidão ou da exclusão da participação feminina na vida política.



Contudo, a duração de uma prática não é um sólido fundamento para sua permanência. Algo deve permanecer somente até quando ele estiver em concordância com a ordem desejada pelo Criador e Arquiteto da realidade. Quando ela se entorta, o chamado é para redenção, para a reforma, independente se esteja há 10 minutos ou 10 décadas em operação.
Recentemente, minha esposa questionou-me sobre as tradições. Ela disse que tradições são criadas, e por isso mudam ao longo do tempo e muitas delas são inventadas para justificar ou racionalizar práticas antíbíblicas. Lembrei-me imediatamente da famosa crítica do Historiador Comunista, Eric Hobsbawm (1917-2012) em “A Invenção das Tradições”. Hobsbawm escreveu que após a Revolução Industrial, as sociedades burguesas foram obrigadas a inventar novas convenções para dar um ar de “continuidade histórica” às suas práticas; ou seja, pela força das tradições. Deste modo, concordo em partes com Hobsbawm, pois o erro argumentativo dos conservadores clássicos é fundado no pensamento que confunde tradições com estruturas; direcionamentos com ordem normativa.



Basicamente, tradições são os costumes que adquirimos com as práticas sobre as estruturas, tais como linguagem, família, relacionamentos, sociabilidade, etc. Quando essas tradições – que são direções dessas estruturas – começam a substituir as próprias estruturas e justificar pecados como escravidão, exclusão da participação feminina na vida política e opressão dos pobres e são defendidas por serem simplesmente tradições, o pensamento conservador precisa ser reformado.



A Cosmovisão Cristã propõe um fundamento sólido aos conservadores clássicos: as estruturas inexoráveis da realidade ao qual devem seapegar e proteger, como família, sexo heterossexual, religião, cultura, liberdade, propriedade privada, dignidade humana; mas também destrói a pretensa autonomia de homens como o próprio Hobsbawm em defender uma nova ordem social baseada em uma revolução. Por isso, Herman Dooyeweerddefendeu em suas palestras que somente através desse sistema de cosmovisão bíblica nós poderemos analisar biblicamente a sociedade, evitar as transformações revolucionárias e dar um sólido fundamento para conservarmos o que de fato precisa ser conservado na criação e como deve ser desenvolvido e direcionado, sempre de acordo com a Palavra-revelação e em amor.



Fonte: Jornal O Regional
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