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Por quê Deus nos criou?:

Jonathan Edwards foi um pastor reformado congregacional, nascido na Nova Inglaterra do século XVIII. Edwards foi instruído no Yale College, sendo um notável acadêmico e escritor sobre filosofia, física e biologia, sempre com uma cosmovisão permeada das Escrituras Sagradas.



Depois de sua morte, foi publicada uma obra de sua autoria no ano de 1765, com o título “Duas dissertações”. A primeira das dissertações foi intitulada “O fim para o qual Deus criou o mundo”. Baseado nesse texto proponho uma reflexão sobre a razão que motivou Deus criar os seres humanos.



O contexto histórico e o próprio conteúdo de “O fim para o qual Deus criou o mundo” nos revelam que foi um texto que visava solapar os fundamentos do deísmo – uma doutrina naturalista antiga que tem como princípio fundamental a ideia de que algo criou o universo físico, mas não interfere nele diretamente. John Locke (1632-1704) e Voltaire (1694-1778), por exemplo, foram famosos defensores do deísmo.



O deísmo da época de Edwards separava o Criador da criação. Alguém que deu corda no relógio e o deixou funcionar por si só. Atualmente, ainda existem algumas variantes desse pensamento antibíblico. Duas das manifestações teóricas com pressupostos deístas mais notáveis são a secularização e a dicotomia. Nelas, o indivíduo pode até crer que um ente divino tenha criado o mundo, mas isso não tem influência em como as criaturas, isso é, os seres racionais dirigem suas reflexões sobre a origem da vida natural.



Edwards, por sua vez, foi brilhante em todas as suas colocações filosóficas sobre o cristianismo contra essas teorias, mas como escreveu Heber Carlos de Campos Júnior (Coordenador do Centro Jonathan Edwards - Brasil), “todo esse brilhantismo veio aliado a uma vida notoriamente piedosa.” Percebemos por ai a diferença do deísmo para o cristianismo bíblico. A reflexão que se segue, portanto, também visa promover a mesma dinâmica: luz no coração e pureza de vida.



A pergunta chave aqui é: por quê Deus nos criou? A resposta de Jonathan Edwards é bíblica e bela: “(...) a difusa disposição que estimulou Deus a dar existência às criaturas foi mais exatamente uma disposição comunicativa em geral, ou uma disposição na plenitude da divindade de fluir e difundir-se.” [In O fim para o qual Deus criou o mundo, p. 39.]



Para Edwards, o propósito de Deus ao decidir nos trazer a existência foi estender sua plenitude divina, ou seja, manifestar sua glória através de nós e alegrar-se nela. Glória é a totalidade dos atributos de Deus em expressão. Nós somos o resultado daquela disposição de Deus em se fazer conhecido por intermédio de suas criaturas. Como declaram alguns teólogos, o homem é “a coroa da criação”, e Deus, o coroado.



Essa explicação de Edwards também contraria a sugestão de outros teólogos que dizem ter Deus criado os seres humanos porque se sentia solitário. Contudo, como Edwards demonstra, “(...) a noção de Deus criar o mundo a fim de receber qualquer coisa particularmente das suas criaturas não somente vai contra a natureza de Deus, mas também é inconsistente com a noção de criação, que implica um ser recebendo sua existência, e tudo o que a ela pertence, a partir do nada. E isso implica a mais perfeita, absoluta e universal derivação e dependência. Ora, se a criatura recebe tudo de Deus, de modo total e perfeito, como é possível que ela possa ter algo a acrescentar a Deus, para de algum modo torná-lo maior do que era antes, e assim o Criador passe a depender da criatura?” [In O fim para o qual Deus criou o mundo, p. 26.]. A teoria da carência divina em criar o mundo e suas criaturas se imbrica com o caráter pleno, independente e autossuficiente do Criador.



Edwards então sugere que na verdade Deus é um ser tão pleno que transborda; na disposição de se comunicar e alegrar-se no conteúdo dessa comunicação Ele despejou-se. Foi nessa ação de se despejar que a raça humana surgiu de modo glorioso. Fomos criados para sermos a extensão do ser de Deus e não aquilo que Lhe faltava. Deus não possui um caráter carente de algo, e, como tudo que fazemos reflete nosso caráter, ao nos criar Ele refletiu seu caráter abundante, rico e pleno.


 


Como escreveu C.S. Lewis: “Em Deus não existe fome que necessite ser saciada, somente fartura que deseja se dar.” [p. 170 in Os Quatro Amores].



Nós recebemos a vida com a finalidade de difundir, como reflexos, o ser belíssimo, puríssimo e justíssimo de Deus. Mas por quê, muitas vezes, parecemos mais demônios do que santos? A razão é que após a queda de Adão, toda a criação incorreu em morte espiritual. Nascemos deformados pelo pecado, e essa finalidade primária foi corrompida, de modo que, pelo pecado, perdemos de vista nosso fim principal e supremo que é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.



Contudo, o caminho que restaura em nós o nosso propósito existencial nos é oferecido mediante a fé em Cristo Jesus. É por meio da fé e do arrependimento que confessamos a Cristo como redentor de nosso propósito existencial e recebemos um coração regenerado, um novo começo. Firmados nessa fé concedida por Deus, caminhamos dia após dia, auxiliados pela Palavra, à santidade que nada mais é que progressivamente nos tornarmos parecidos com Cristo, nos revestindo “(...) do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou.” [Colossenses 3.10].



Que nós, munidos dessa belíssima reflexão que Edwards nos proporciona, possamos ser motivados a vivermos o propósito para o qual fomos criados e através da imitação de Cristo em todas as nossas esferas de vida – igreja, família, trabalho, política e sociedade – voltemos a manifestar a glória do Criador, seja em nossos pensamentos, palavras e ações. O verdadeiro e glorioso propósito existencial da raça humana é difundir pelo mundo a imagem de Deus.



Fonte: Jornal O Regional
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