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O Jovem intelectual maturidade, dedicação e solidão:

“Vejo a vida intelectual como um valioso rito de passagem da juventude para a maturidade, um caminho de tentativas, erros e acertos rumo à sabedoria, e não apenas à erudição.”
Bruno Garschagen


 


Na coluna de hoje, o tema da nossa reflexão é a vida intelectual na juventude. Sempre que falamos da formação dos jovens, falamos de um assunto pertinente. Creio que estão no cultivo da intelectualidade dos jovens os novos frutos - bons ou ruins - do futuro de uma sociedade. Para tratar desse tema com autoridade, convidei Bruno Garschagen. Bruno é autor do best seller “Pare de Acreditar no Governo” e também do recente “Direitos Máximos, Deveres Mínimos”.



Além disso, Bruno é Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student), formado em Direito e coordenador e professor de Ciência Política da Pós-Graduação em Escola Austríaca (IMB-UniÍtalo).



Em 2019 foi um dos principais comentaristas de política na rádio Jovem Pan, e, no início de 2020 chefiou o departamento de comunicação e imprensa do Ministério da Educação do governo de Jair Bolsonaro.


 


Fernando Razente: Bruno, o que é e qual a importância da vida intelectual na juventude?


 


Bruno Garschagen: “A vida intelectual é, ou deveria ser, o cultivo do espírito por meio do conhecimento e a busca por um sentido para a vida. Os instrumentos à disposição para essa empreitada são os livros, os ensinamentos de quem conhece e pode ensinar aquilo que lhe interessa, e viver a vida como se fosse uma grande e estimulante jornada. O grande problema é que realizar o que acabei de descrever exige algo que a juventude (ainda) não tem: maturidade. Vejo a vida intelectual como um valioso rito de passagem da juventude para a maturidade, um caminho de tentativas, erros e acertos rumo à sabedoria, e não apenas à erudição. Talvez a maioria dos jovens padeça da natural juvenilidade e, uma vez iniciada a trajetória, confunda acúmulo de conhecimento com sabedoria, algo que exige o transcorrer do tempo, experiências de vida, sofrimento, sobretudo. Maturidade, aliás, não se conquista com a idade: cada vez mais há mentes juvenis em corpos adultos. A vida intelectual na juventude ajuda o iniciado a civilizar-se. Por outro lado, não acredito que o conhecimento e o cultivo da vida intelectual por si mesmos tornarão uma pessoa necessariamente virtuosa. Há canalhas cultos e honrados ignorantes. Quem é digno, se esforça por toda a vida para ser sábio e honrado. Se árduo e honesto, tal esforço já é valoroso, compensa a trajetória.”



Fernando Razente: Qual a posição que a leitura - e os tipos de leitura consumida, como jornais, blogs, impressos e livros - tem na vida intelectual do jovem?


 


Bruno Garschagen: “Não existe uma regra: cada jovem atribuirá uma importância inicialmente utilitarista ao escolher o tipo de leitura que é necessária (para a escola ou faculdade) e a que lhe interessa naquele momento de vida. É a dedicação e o esforço árduo, o grande objetivo e a atitude perante a vida que farão com que a leitura seja um ativo - e não um passivo - na vida do jovem. Mas não há dúvida de que os livros estão num plano hierárquico infinitamente superior aos jornais, blogs, etc. para quem deseja construir uma vida intelectual. A depender do jornal que se lê, o que se tem é a morte do intelecto.”



Fernando Razente: Quais funções e formas devem ter a escrita, o diálogo e a reflexão para uma vida intelectual de qualidade na juventude?


 


Bruno Garschagen: “Não existe regra. E insisto nisso porque sofri um bocado seguindo sugestões de grandes intelectuais e escritores que não serviam para mim. Quando isso acontece, você duvida de você, da sua capacidade, e não da forma, do método, que você está usando. É importante que você conheça e que teste, e que saiba que aquilo que funcionou para os seus mestres pode não ser adequado para você. O que eu sempre tentei fazer – e continuo – era pensar que os elementos separados eram o alicerce do todo. A partir daí eu conseguia encaixar cada um deles como se fossem as fundações de um edifício. Por exemplo: eu leio grifando e anotando, o que desperta a reflexão contínua. Em seguida, escrevo observações e impressões a respeito do que li e refleti. Depois, reescrevo frases ou parágrafos para ver como aqueles trechos que achei notáveis soariam com a minha escrita. Ao estabelecer esse diálogo com o escritor, consigo entrar no universo que ele criou e estabelecer um paralelo com aquilo que aquele universo provocou em mim e como eu refleti a partir dele, estando, ao mesmo tempo, dentro e fora do livro. É como se eu criasse dois universos paralelos que se comunicam o tempo inteiro e me fornecem as ferramentas que eu preciso para, a depender do livro, desfrutar a leitura ou apreender o seu conteúdo. A partir desse diálogo com a obra, passo a dialogar com os seus críticos ou leitores amadores, e assim continuo a erigir o edifício do conhecimento que já tem fundações sólidas. A vida intelectual exige treino, dedicação, sacrifício, como qualquer instrumento musical, como qualquer esporte.”



Fernando Razente: Quais sacrifícios, desafios e privações a vida intelectual exige na juventude?


 


Bruno Garschagen: “Há quem consiga ter vida social e vida intelectual na juventude: não são excludentes. Eu não consegui e lamento por isso. Submergi completamente na leitura e nos estudos. Achava que devia fazê-lo a fim de ler tudo o que eu gostaria e achava importante. Queria compensar o tempo perdido até aqueles 20 anos como não-leitor. Quando eu gostava de um autor, lia tudo dele. Lembro de quando li Santuário, de William Faulkner. Fiquei maravilhado. Peguei emprestado com um amigo todos os livros do autor traduzidos para o português. Li tudo. Foi assim com vários outros escritores. Foi não, continua sendo. Infelizmente, o equilíbrio, sempre necessário, que me permitiria aproveitar parte da vida social da faculdade, só obtive gradualmente com a maturidade. Mas, como disse uma vez meu pai, o tempo passado não se recupera.”



Fernando Razente: O jovem intelectual sofre preconceitos?


 


Bruno Garschagen: “Não vejo preconceito, mas, apenas por aquilo que vivi e presenciei, noto um incômodo pelos que estão ao redor do jovem. Aquele que pretere a sua vida social pela leitura e pelos estudos é cobrado em maior ou menor grau pela família e pelos amigos. Ou não é incentivado. Talvez porque os que estão à sua volta não entendam o que a leitura e os estudos significam para ele em razão dos interesses divergentes. Quem não tem o hábito da leitura ou diz não gostar de ler é incapaz de ver alguém sentado lendo e não incomodar. Quantas vezes eu, dentro do ônibus lendo, fui interrompido pela pessoa ao lado que, estranhamente, considerou que meu ato de ler era um refúgio contra a solidão, um aceno desesperado para que um estranho se aproximasse com uma conversa salvadora. Na média, o brasileiro detesta solidão e silêncio, e tenta impedir qualquer um de desfrutá-los.”



Fernando Razente: Bruno, como foi o seu caminho na vida intelectual ainda jovem e quais conselhos você daria para a juventude?


 


Bruno Garschagen: “Comecei tardiamente, ali pelos 20 anos. Foi quando descobri que gostava de ler e passei a fazê-lo diariamente. Essa descoberta me levou a outra: havia tanto o que ler que eu precisava organizar a minha rotina para essa missão de vida. Não era fácil, pois eu trabalhava durante o dia e fazia faculdade de Direito à noite. Sendo assim, eu andava sempre com um livro à mão para ler em qualquer tempo disponível. Comecei a treinar métodos de leitura dinâmica e a ler enquanto andava para o trabalho e para a faculdade. Lia durante algumas aulas cujo conteúdo eu aprendia rápido. Li Ulisses, de James Joyce, na sala de aula durante o quinto ano de faculdade. Meus fins de semanas eram dedicados à leitura civilizatória (prosa e poesia, filosofia, crítica literária) e ao estudo do Direito. O que eu posso dizer a partir da minha experiência é: escolha aquilo que lhe interessa e dedique-se com afinco, não ceda à tentação da arrogância e tente aprender com todo aquele que você tiver a oportunidade de conversar. Lembre-se que Sócrates filosofava a partir do contato com pessoas diversas, não somente com outros filósofos; e que a grande literatura se constrói a partir das histórias de seres humanos medianos, não de gênios.”



Fonte: Jornal o Regional
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